2016, um ano para esquecer

28/11/2016

Imagem: Thinkstock
 
A expectativa de uma rápida recuperação da economia - e consequentemente da produção e vendas da indústria e do varejo - só deve se concretizar mesmo em 2017. 
 
A reação dos índices de confiança no período pós-impeachment mostrou na verdade uma esperança de melhora para o futuro, mas que na prática não se converteu em atitudes concretas: nem de investimento por parte de empresários, nem de compras da parte dos consumidores.
 
O ano chega ao fim com um certo clima de frustração por parte de empresários, que esperavam visualizar ainda em 2016 os efeitos de uma recuperação após o início do ajuste fiscal promovido pelo governo de Michel Temer. É um ano que também se encerra com uma dose de incertezas. 
 
Uma delas paira sobre o prosseguimento do ajuste fiscal pelo governo, ou mais especificamente, sobre a aprovação da reforma da Previdência, que é essencial para o funcionamento da PEC do Teto dos Gastos.
 
Sem regras para limitar o gasto com a primeira, a segunda não surtiria efeito no ajuste de contas do governo. A outra está sobre os efeitos incertos na economia brasileira da política do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
 
O quadro realista mostra que a situação ainda é delicada para o consumo e os investimentos, e com o peso ainda pequeno das exportações sobre a economia, uma saída pode vir do resultado das concessões em infraestrutura
 
Este ano deve terminar com muitos indicadores negativos, ainda que tenham melhorado na comparação com 2015. Um exemplo é o varejo, que deve encerrar o ano com recuo de 6% nas vendas neste ano - menor do que o tombo de 8% em 2015.
 
A avaliação dos economistas da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) é que a situação ainda está muito delicada para a retomada do consumo. Um dos componentes é o crédito, que recuou 2% nos 12 meses encerrados em outubro, atingindo com mais força as empresas.
 
Para as famílias houve crescimento nominal de 0,7% em outubro - o que sinaliza que a intensidade de redução para os consumidores tende a ser menor. A inflação, por outro lado, também mostra sinais de desaceleração procedente dos preços dos alimentos. 
 
A prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) de novembro foi de 7,64%, em um intervalo de 12 meses, e sinalizou ter entrado em uma trajetória de arrefecimento até meados de fevereiro pelo efeito sazonal.
 
Isso poderia até ser uma boa notícia no sentido de criar um ambiente para a redução da taxa básica de juros(Selic) ainda em novembro, mas a eleição de Trump adicionou incertezas em relação a isso. 
 
A queda na atividade já resultou em um saldo de 22 milhões de desempregados e há pouco sinais de contratação por enquanto.
 
A massa salarial acumula queda de 3,8% em 12 meses até setembro e, apesar do arrefecimento na comparação com os meses anteriores, deve terminar o ano negativa. 
 
Por isso, a recuperação do varejo será lenta e deve se concretizar levemente até abril. A previsão tem como base o Índice Nacional de Confiança elaborado pelo Instituto Ipsos para a ACSP, além de estatísticas produzidas pela entidade com base em dados da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo para a produção do boletim ACvarejo. 
 
Assim, até o fim do ano as vendas atingem o fundo do poço e ficam em uma espécie de platô, não decolando muito em razão do desemprego elevado e do encolhimento da renda.  
 
No último almoço do ano de Conjuntura Econômica da ACSP, que reúne empresários de diversos setores -agronegócio, e-commerce, serviços, indústria e varejo-, uma das conclusões é que os efeitos do ajuste na economia devem demorar para se refletir nos gráficos de vendas, produção e emprego. E isso faz de 2016, como lembrou um dos participantes, um ano para ser esquecido. 
 
Um dos empresários afirmou que as empresas ajustaram suas estruturas para sobreviver à crise e, mesmo que tenham sentido reação nas vendas, ainda não têm previsão de ampliar o quadro de funcionários. 
 
A indústria, que acumula queda de 8,8% em 12 meses até setembro, deve terminar o ano com queda de 6% a 7%. O segmento de pequenas farmácias, que se mostrou resiliente durante a crise, espera chegar ao fim de 2016 com crescimento modesto, da ordem de 10% -inferior aos 12,7% de 2015. 
 
Até mesmo o comércio eletrônico, que também manteve um crescimento nominal positivo ao longo da recessão, deve chegar ao final do ano com crescimento de um dígito pela primeira vez em sua recente história. A indústria de material de construção voltou a exibir um crescimento nominal de 8,6% em outubro na comparação com setembro.
 
O lançamento de um programa de subsídio de reforma de residências para famílias de baixa renda, o Cartão Reforma, foi bem avaliado pelos empresários, que acreditam que o próximo passo será a recuperação do varejo do segmento. 
 
Empresários do agronegócio, setor que também conseguiu manter-se bem na crise, apesar da queda dos preços internacionais de commodities, dependerão nesta virada do ano da situação climática, já que no setor de grãos a área plantada atingiu 210 milhões de toneladas.
 
Trata-se do único setor otimista com a vitória de Trump, que pode praticar uma política capaz de favorecer os preços internacionais de commodities.

Fonte: Diário do Comércio

 

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