Como as questões de sustentabilidade podem afetar seu negócio

16/10/2015

A sustentabilidade está no planejamento de sua empresa? Os efeitos das mudanças climáticas conseguem perturbar o seu sono?

Os dois temas entraram no vocabulário de muita gente. Mas continua a ser uma incógnita em que medida sua importância é compreendida e estão de fato motivando mudanças na sociedade.  Duas pesquisas em curso no Brasil pretendem dimensionar o quanto ainda falta para empresas e cidadãos incorporarem estes temas no seu dia a dia.
 
O levantamento Futuro do Varejo Sustentável, conduzido pela Fundação Dom Cabral para a Fecomércio, pretende mensurar o quanto as empresas brasileiras do setor adotaram os temas da sustentabilidade em suas atividades.

 Outro estudo, produzido pela consultoria americana FrameWork para as ONGs Observatório do Clima e Arapyaú, levantou o nível de compreensão dos brasileiros sobre as mudanças climáticas, fundamental para fazer com que a opinião pública pressione por soluções para o problema. 

As informações prévias levantadas pelos dois estudos indicam que ainda há um muito por fazer em termos de comunicação e engajamento para que os temas sejam assimilados pela sociedade.

REATIVOS OU PROTAGONISTAS?

Os resultados iniciais da pesquisa Futuro do Varejo Sustentável mostraram um “varejo menos maduro” em relação à sustentabilidade quando comparado a outros setores empresariais, de acordo com o coordenador do estudo, Heiko Spitzeck, professor e gerente do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral.  

As informações levantadas até agora evidenciam o “comportamento reativo” dos varejistas, segundo o pesquisador. “Só quando o problema aparece, os empresários do setor começam a aprender e a adotar medidas, como redução de consumo de água e energia ou controle da cadeia de fornecedores.” A pesquisa completa da Fecomércio deve ser divulgada em novembro. 

No estudo, as questões propostas procuram deixar claro o vínculo entre ações de sustentabilidade e a linha de negócio, além de evidenciar em que medida as ações trazem de valor à empresa.

“Procuramos chamar a atenção do varejista para o que mexe com o seu negócio e deve ter sua atenção”, explica Spitzeck. A abordagem leva em conta tanto o perfil do varejo apoiado em preço quanto o que busca a diferenciação.

Em busca da percepção dos varejistas, os questionários avaliam três aspectos fundamentais tanto para a gestão quanto para a sustentabilidade.

Redução de risco – Foram propostos temas que devem ser observados por todos os varejistas, como denúncias de trabalhos forçados no setor de confecção, que afeta as redes de vestuário; falta de água, que pode causar milhões em prejuízo para o varejo de alimentação; ou corrupção.

Redução de custos – As questões avaliam que medidas a empresa está tomando para conter o consumo de energia e água, itens com forte impacto nos custos operacionais. 

Diferenciação no mercado – Trata-se de um gancho de valor que estimula o crescimento mesmo em épocas de crise. Tem em vista tendências do varejo como a da alimentação saudável, representada pela venda de produtos orgânicos ou livres de glúten, e a regionalização, com a valorização da produção local

O “comportamento reativo do varejo”, de acordo com o pesquisador, se refere às respostas obtidas em relação à redução de risco e redução de custos.

“Quando perguntamos ao varejista se algum assunto ambiental ou social havia impactado sua empresa nos últimos 12 meses”, explica, “a maioria indicou problemas existentes há anos, como crise energética e corrupção, e que já poderiam ter sido minimizados. Mas só agora, quando estão afetando diretamente a empresa, eles começam a tomar providências.”  

Se por um lado o varejo brasileiro ainda tem muito a andar para aproveitar as vantagens da sustentabilidade para o negócio, Spitzeck ressalta o quanto pode ser benéfico o envolvimento do setor.

“O varejo tem poder para iniciar grandes transformações”, disse. “Quando o Walmart decidiu vender exclusivamente lâmpadas econômicas em suas lojas, houve um efeito cascata sobre o comércio e os consumidores que influenciou o índice de redução de consumo de energia nos Estados Unidos.”

O pesquisador vislumbra o mesmo efeito benéfico sobre a crise energética do Brasil se houver uma articulação do setor varejista. “Precisamos mostrar aos pequenos e médios varejistas o imenso potencial de transformação e engajamento que eles têm nas mãos. Deveria ser fácil conseguir isso porque são argumentos econômicos óbvios.” 

A pesquisa pretende coloca luz nesse fenômeno. Para o pesquisador, “o varejo precisará olhar seu futuro e decidir se quer ser protagonista ou ficar refém dos preços ou, pior, da interferência do governo.” 

“CLIMA É A TEMPERATURA DO DIA?”

Há mais de 20 anos, o tema mudanças climáticas entrou na pauta dos grandes veículos de comunicação. O tom foi sempre de alarme, ora usando dados científicos que descreviam uma catástrofe, ora apelando para a emoção. No entanto, ainda hoje a maioria das pessoas encara o assunto como uma possibilidade em um futuro distante e não um fenômeno que já começou a acontecer. 

Antes restrito a acusações entre cientistas e ativistas ambientais, a dificuldade de se fazer entender saiu da academia e passou para a esfera que realmente importa, a comunicação. Assumindo que fracassaram na divulgação do tema, jornalistas e comunicadores foram investigar o que o público brasileiro absorveu de fato sobre mudanças climáticas e porque se preocupa muito menos do que os pesquisadores desejam.

A pesquisa foi feita pela consultoria americana FrameWork, especializada em comunicação de grandes causas e conhecida por ter feito alguns temas sociais críticos e complicados ficarem palatáveis até no discursos de Barak Obama.

Na metodologia aplicada no Brasil, os pesquisadores primeiro entrevistaram 12 especialistas sobre o que consideram informações-chave da questão. Em seguida, fizeram entrevistas de duas a três horas com 25 representantes-padrão do público para obter a percepção de cada um sobre estes dados. 

O levantamento constatou que os brasileiros têm um interesse real no tema e levam a sério as informações científicas. Ao contrário dos Estados Unidos, onde há uma grande campanha de negação do problema e uma descrença maior em relação à ciência.

Porém, o que os cientistas sabem está muito distante do que os cidadãos brasileiros entendem por mudanças climáticas. E isto preocupa, pois o principal fator para acelerar as mudanças, as medidas governamentais, depende do entendimento correto do problema e da pressão da sociedade.

A confusão começa na própria concepção de clima. A maioria confunde com previsão meteorológica e com a variação de temperatura durante o dia. Os equívocos continuam. Para os entrevistados, produção energética é sinônimo de hidrelétricas. 

A ideia de aquecimento global, uma das causas do fenômeno, coloca mais ruído na conversa. As interpretações equivocadas e até opostas ocorreram quando se falou em gás carbônico, efeito estufa, camada de ozônio, energia renovável, entre outros termos técnicos usados pelos especialistas e pela imprensa. 

Os entrevistados também se confundiram sobre o que é causa e o que é efeito das mudanças climáticas quando citaram desmatamento, poluição, combustíveis fósseis e doenças. Culpa de quem emite a mensagem ou de quem recebe? 

Os resultados da pesquisa vão alimentar a segunda fase do projeto, na qual serão testadas soluções de comunicação que façam sentido para a população. Quem sabe aí se consiga transformar outra crença arraigada entre as pessoas. A de que o a solução para as mudanças climáticas depende da conscientização de cada pessoa e de ações individuais. A maioria não consegue ver o papel da legislação e dos governos para acelerar as medidas necessárias. 

Imagem: ThinkStock

Fonte: Diário do Comércio

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