Fazer o bem (e ganhar dinheiro), que mal tem?

02/12/2016

Imagem: Thinkstock
 
O que você faria se sua filha, após um erro médico no parto, sofresse de paralisia cerebral? Uns apelariam para a fé, outros para a justiça. O analista de sistemas Carlos Pereira decidiu recorrer ao empreendedorismo
 
Há nove anos, quando Clara nasceu, veio o diagnóstico. Aos poucos, a família foi aprendendo a lidar com as deficiências da menina.Após alguns anos, Pereira percebeu que ela fazia os primeiros esforços para se comunicar.
 
A solução mais comum nesses casos são figuras impressas em cartões que são armazenadas numa pasta. Cada uma dessas imagens ajuda a pessoa a expressar uma ação ou um objeto. Quando ela deseja algo, simplesmente aponta.
 
Esse recurso, no entanto, é trabalhoso para os pais e cuidadores. Cada novo item deve ser fotografado ou desenhado, recortado e incluído nessa grande pasta.mPara os portadores de deficiência, esse sistema limita a comunicação, uma vez que não consegue traduzir de forma efetiva todos os pensamentos, vontades e sensações. 
 
Ao perceber as dificuldades da filha, Pereira começou a conceber um aplicativo. Ele usou sua experiência em tecnologia da informação e conseguiu criar um algoritmo que se ajusta às necessidades de Clara.  

“Algumas pessoas com deficiência não tocam da mesma forma nos tablets, elas geralmente apertam os botões com a palma da mão ou arrastam os dedos pela tela”, afirma Pereira. “Os programas não conseguem registrar isso como um toque, mas o software que desenvolvemos consegue identificar esse contato.”

Além disso, as funcionalidades do aplicativo são adaptativas tanto na parte motora quanto no conteúdo. Há mais de 25 mil imagens cadastradas, e novas informações podem ser inseridas de acordo com a necessidade do usuário.  
CARLOS PEREIRA, FUNDADOR DO LIVOX
 
O APP DA CLARA GANHA O MUNDO
 
No inicio, o aplicativo era apenas para o uso da Clara, mas diversos pais começaram a se interessar pelo programa.
 
Pereira percebeu que, além de ajudar sua filha, esse software podia ser um bom negócio. Ele alterou algumas funções e o adaptou para outros tipos de deficiência. Começou assim, a história do Livox

De acordo com a organização das Nações Unidas (ONU), um em cada sete pessoas do mundo vive com alguma forma de deficiência
.
 
Há, somente no Brasil, 15 milhões de pessoas com alguma dificuldade na fala. Um mercado gigante que, quase sempre, é negligenciado pelas grandes empresas. 

Pereira começou a vender a licença do aplicativo e, nesse mesmo período, procurou a ajuda de instituições que o auxiliassem nessa empreitada. Ele encontrou apoio no Porto Digital de Recife, cidade em que morava. 

O Livox também participou do processo de aceleração da Artemisia
, organização sem fins lucrativos que apoia negócios de impacto social.
 
Durante o programa, Pereira aprimorou alguns detalhes do software e aprendeu sobre conceitos de gestão. 

Passo a passo, a empresa de Pereira começou a conquistar o Brasil e o mundo. Para ganhar escala e deixar o preço do App mais acessível, o Livox fez uma parceria com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais do Estado de São Paulo (APAE) e vendeu mais de mil licenças para a prefeitura de Recife. 

Na sequência vieram diversos prêmios, o mais importante foi o prêmio da ONU de melhor aplicativo de ação social do mundo. Esse título chamou atenção do Google
, a gigante americana de tecnologia, que decidiu investir na empresa.

Em junho deste ano, Pereira se mudou com a família para os Estados Unidos, onde trabalha, em conjunto com o Hospital da Flórida, para aprimorar e criar novas funções do aplicativo.
 
FABIO SATO, DA ARTEMISIA, INSTITUIÇÃO QUE AJUDA EMPRESAS DE IMPACTO SOCIAL
EMPRESAS DE IMPACTO SOCIAL
 
Negócios, como o Livox, fazem parte do chamado empreendedorismo social, que abrange quaisquer iniciativas inovadoras que visam solucionar ou amenizar problemas sociais.
 
Essa classificação, no entanto, engloba diversas formas de organização, inclusive a em fins lucrativos. 

A Artemisia prefere utilizar o termo “negócios de impacto social”. Essa classificação envolve alguns critérios: as empresas devem ter como foco resolver problemas da população de baixa renda e o modelo de negócio tem que ser rentável e escalável, ou seja, não podem ser mantidas por doações. 

“O lema da Artemisia é que entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, fique com os dois”, afirma Fabio Sato, coordenador de projetos de Aceleração da organização. 

Cada vez mais empreendedores estão acreditando é possível unir esses dois mundos. Um levantamento feito pela Artemisia aponta o aumento do número de negócios de impacto social no Brasil. 
Só no Programa Aceleradora houve um crescimento de mais de 300% nos últimos quatro anos. 

Em 2015, mais de R$ 16 milhões foram investidos nos negócios de impacto social acelerados apenas pela organização – um crescimento de 42% em relação ao ano interior. Fora dessas instituições, algumas empresas correm por fora. A Mooh Tech é uma delas. 

Fundada em agosto deste ano, os sócios Henrique Mafra, Everton Cruz e Bruno Silva criaram a ferramenta Sempre Alerta para conectar a população diretamente com as centrais de segurança das cidades por meio de um aplicativo. 

O sistema foi lançado inicialmente nas cidades do agreste de Pernambuco, como Belo Jardim, Pesqueira, Lajedo, Poção e Capoeiras. 
Nesses locais a incidência de crimes é bastante alta, principalmente casos de violência contra a mulher, estupros, roubos e furtos.  

“Queremos devolver o poder para população, que é a verdadeira dona das cidades”, afirma Cruz. “Eles podem comunicar ocorrências e cobrar diretamente os órgãos responsáveis.”

A Mooh foi fundada com recursos próprios e investimento inicial foi de R$ 330 mil. As prefeituras e governos dos Estados compram o sistema, mas o aplicativo é gratuito para os usuários. “Para o setor público, a ferramenta custa menos de três centavos por habitante”, diz Cruz. Já foram mais de mil denúncias nesses poucos meses de funcionamento. 

A Mooh Tech está estudando, agora, a implantação em outras da região do Brasil. O mesmo acontece com o Livox, mas em âmbito mundial. Empreendedores, como Pereira e Cruz, mostram que é possível mudar a vida de milhares de pessoas, apenas com o toque dos aplicativos. 
 
Fonte: Diário do Comércio

 

Mais notícias